Flanelinhas na mira: até onde o município pode ir?

Por: Marcelo Mendes Arigony- Professor-Doutor-Delegado aposentado-Diretor da Ulbra Santa Maria

Porto Alegre aprovou uma lei proibindo a atuação dos chamados flanelinhas nas ruas da cidade. A justificativa era clara: evitar constrangimentos, reforçar a segurança e coibir abusos. Mas a norma foi parar no Supremo Tribunal Federal — e agora, o que está em discussão não é mais o incômodo nas calçadas, mas o limite entre a autonomia do município e a Constituição Federal.

Muita gente aplaudiu a decisão da capital. Outros viram exagero. Mas o problema é mais complexo do que parece — e a resposta não está nem num lado nem no outro.

O município alegou que a atividade colocava em risco a ordem urbana. Só que essa mesma atividade já é reconhecida em outras esferas — e, em tese, poderia continuar existindo, desde que houvesse regras claras. A própria lei falava em alternativas para os trabalhadores informais, mas até hoje, nada foi implementado. O resultado foi uma proibição sem saída concreta para quem depende disso pra viver.

A cidade tem seus motivos, e eles não são desprezíveis. Mas o direito impõe limites — e é aí que entra o Supremo. Ele vai decidir se essa tentativa de solução urbana respeitou os contornos constitucionais, ou se ultrapassou a linha. E mais: vai criar um precedente que pode impactar outras prefeituras do país.

Não é uma questão de romantizar ninguém. Também não se trata de fechar os olhos para os abusos que, sim, acontecem. Mas há uma diferença entre disciplinar e eliminar — e é esse o debate que chega agora à mais alta corte do país.

O julgamento ainda não tem data marcada. Mas quando for pautado, vale acompanhar com atenção. Porque a pergunta que o STF vai responder — ainda que com aparência técnicua — mexe com a vida de quem trabalha na rua, com o poder das cidades e com o sentido de justiça que a gente espera das instituições.

https://noticias.stf.jus.br/postsnoticias/stf-vai-analisar-validade-de-lei-de-porto-alegre-rs-que-proibe-atividade-de-flanelinhas-nas-ruas

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