Fotos: Rafael Menezes
Familiares, amigos e sobreviventes da tragédia da Boate Kiss realizaram, na segunda-feira (26), uma caminhada silenciosa em Santa Maria, véspera da madrugada de 27 de janeiro. O ato teve início na Praça Saldanha Marinho, com a Tenda da Vigília montada a partir das 21h, onde os participantes foram acolhidos para o momento de lembrança.
Às 22h, a Caminhada de Vigília teve início. Os presentes seguiram até a Rua dos Andradas, onde funcionava a Boate Kiss, com velas acesas e flores nas mãos, prestando homenagem às 242 pessoas que perderam a vida e às mais de 600 que ficaram feridas no incêndio ocorrido em 2013. A caminhada luminosa refletiu a dor, mas também a força da comunidade para manter viva a memória da tragédia.
Às 22h15min, foi realizado o Ato “Ausência Presente”, na Rua dos Andradas, onde as pessoas se reuniram para refletir sobre a ausência das vítimas, mas também sobre a presença de seus nomes e histórias, que seguem vivas na memória de todos.

O evento seguiu com o Ato “Nada Consta”, que teve início às 23h no tapume da obra do memorial às vítimas, simbolizando a busca contínua por justiça para aqueles que perderam suas vidas na tragédia. Esse ato expressou, mais uma vez, o anseio por respostas claras e por um reconhecimento real das responsabilidades.
A programação da noite se concluiu à meia-noite, com um Minuto do Barulho, em homenagem às vidas perdidas no incêndio da Boate Kiss. O som, simbolizando a luta pela justiça e pela memória, foi seguido de uma salva de palmas emocionada, lembrando aqueles que partiram e os sobreviventes que continuam a lutar por uma sociedade mais justa e segura.

Durante o ato, o presidente da Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM), Flávio Silva, compartilhou suas angústias ao relembrar o que se passou. Ele destacou a dor constante, intensificada pelas recentes decisões judiciais, como a redução das penas dos réus, que aconteceu em agosto do ano passado. – A sensação continua sendo de aperto. Ainda este ano, essa dor está mais forte por conta das decisões do Poder Judiciário, com a redução pela metade das penas dos réus. Parece tudo muito recente, porque tínhamos a convicção de que neste ano chegaríamos ao trânsito em julgado do processo penal. Essa redução fez com que tivéssemos que ingressar com recursos nos tribunais superiores e, infelizmente, esse processo deve se arrastar até meados de 2027 – afirmou Silva, expressando seu lamento e a luta contínua por justiça.

Outro depoimento marcante foi o de Delvani Rosso, um dos sobreviventes da tragédia, que compartilhou sua experiência ao retornar ao local 13 anos depois. – Conforme os anos foram passando, os sentimentos vão mudando. No primeiro ano, eu não consegui ficar um minuto aqui na frente. Depois, a gente vai ressignificando, cada um do seu jeito e no seu tempo. Eu comecei a confrontar os traumas, tudo que me deixava desconfortável em relação à Kiss – relatou Delvani, que explicou como transformou sua dor em propósito, tornando-se palestrante sobre segurança em ambientes públicos. – Comecei a levar essa conscientização para empresas, para que isso nunca mais aconteça. Hoje, junto com os pais e outros sobreviventes, eu não sinto mais sentimentos negativos, mas gratidão por estar aqui, por estar vivo, por conseguir honrar os que ficaram, meus amigos, e por poder acolher e ajudar outras pessoas – disse ele.
Questionado sobre a importância de passar essa mensagem para as novas gerações, Delvani destacou a responsabilidade de fazer a segunda chance valer a pena. – É fazer a minha parte, fazer essa segunda chance realmente valer a pena – afirmou. Ele também alertou sobre a possibilidade de tragédias semelhantes em outras partes do mundo. – Parece que o ser humano esquece muito rápido das coisas. A gente vê festas lotadas, como em 2013, e isso acontecendo de novo. A ganância ou a falta de consciência acabam levando para que aconteça novamente. Por isso esse trabalho de conscientização tem que ser feito o tempo todo – concluiu Delvani.

Programação de hoje, 27 de janeiro
Hoje, terça-feira (27), a cidade de Santa Maria continua a programação com uma série de atividades de reflexão e debate sobre segurança, dor e conscientização.
• 18h10min – Mesa 1: “Segurança contra incêndios: da norma à vida”
A primeira mesa de discussões abordará questões relacionadas à segurança contra incêndios. Participarão Fabricio Bolina, engenheiro civil e professor da Escola de Engenharia da UFRGS, João Vivian, engenheiro civil e diretor do Sindicato dos Engenheiros (SENGE), e Rogério Lin, da Associação Brasileira de Proteção Passiva contra incêndio (ABPP). O objetivo é promover uma reflexão sobre como a segurança nas casas noturnas pode ser aprimorada para evitar tragédias como a da Boate Kiss.
• 19h – Mesa 2: “Quando a dor vira linguagem”
Neste painel, psicólogos e ativistas discutirão como a dor se transforma em linguagem e em forma de expressão. Participarão da mesa Bruna Ozório, psicanalista e mestre em Psicologia, Carlos Latuff, cartunista e ativista político brasileiro, e Sandra Fagundes, psicanalista e mestre em Educação. A mesa promete uma reflexão profunda sobre o impacto psicológico da tragédia nas vítimas e seus familiares.
• 19h50min – Mesa 3: “Lançamento do Alerta Kiss – Informação que salva”
O foco desta mesa será a importância de disseminar informações para garantir que tragédias como a da Boate Kiss não se repitam. Participarão Luiza Mathias, sobrevivente e membro do Coletivo Kiss, Mary Pereira, também membro do Coletivo Kiss, e Rosito Borges, engenheiro de segurança do trabalho e bombeiro civil. O painel abordará a criação e o lançamento do Alerta Kiss, uma iniciativa que visa promover a segurança nas casas noturnas por meio de informações e conscientização.
À 20h30min, o evento se encerrará com um ato final de memória e compromisso coletivo. A comunidade será convocada a manter viva a memória das vítimas, fortalecer a responsabilidade coletiva e transformar a dor em um compromisso permanente com a vida.