Crimes virtuais avançam em Santa Maria: Estelionatos crescem e exigem nova resposta do Estado

Você já recebeu uma mensagem, ligação ou e-mail dizendo que ganhou algum prêmio, ou que precisa regularizar alguma situação bancária ou cadastral? E o que você fez? Ignorou? Bloqueou o número? Registrou ocorrência?

Muita gente apenas apaga essas mensagens e segue o dia, sem pensar que aquele golpe que tentou te atingir pode ter feito outra vítima. Outros, infelizmente, caem na armadilha e, por vergonha, também deixam de relatar o crime. Isso cria um cenário silencioso e perigoso: os crimes virtuais seguem em expansão, enquanto as estatísticas oficiais mostram queda nos crimes de rua.

Um levantamento com dados da Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Sul, de 2016 até abril de 2025, revela uma mudança expressiva no comportamento da criminalidade. Enquanto crimes físicos como homicídios, furtos e roubos apresentaram queda, os casos de estelionato explodiram — mais do que dobrando em alguns anos. Esses crimes, muitas vezes digitais e invisíveis à vista do cidadão comum, passaram a dominar as estatísticas criminais.

Golpes por telefone, links maliciosos, falsas promoções e campanhas inexistentes são alguns exemplos da nova forma de criminalidade digital. Muitos desses golpes são arquitetados de dentro de presídios, com o uso ilegal de celulares. A falta de bloqueadores de sinal se tornou um problema sério, que mantém essa engrenagem de fraudes em funcionamento.

Essa nova realidade fez com que o Estado reagisse. Com o avanço dos crimes digitais, foi criado o Departamento Estadual de Repressão aos Crimes Cibernéticos (DERCC) — um novo órgão da Polícia Civil voltado exclusivamente à investigação e combate a crimes virtuais. O DERCC foi instituído por decreto em 8 de abril, como resposta direta ao crime organizado digital.

A Divisão de Repressão aos Crimes Cibernéticos, parte do DERCC, vai apurar invasões a dispositivos, fraudes online e crimes nas redes deep e dark web. É uma iniciativa que marca a entrada da segurança pública em uma nova era, onde os inimigos não estão mais nas esquinas — mas nas telas.

Um exemplo ocorreu no dia em que o Governo do Estado anunciou o programa CNH Social, em 8 de maio. Mensagens falsas começaram a circular, cobrando taxas — o que é golpe. A própria Secretaria de Segurança Pública precisou alertar que o documento será 100% gratuito.


Santa Maria em alerta

Em Santa Maria, a realidade não é diferente. Segundo a Polícia Civil, entre novembro de 2024 e abril de 2025, foram registradas 888 ocorrências de estelionato por fraude eletrônica. Isso representa uma média de 148 casos por mês — ou 4,88 por dia.

Os golpes mais comuns incluem:

  • Clonagem de WhatsApp, Facebook e Instagram
  • Empréstimos bancários fraudulentos
  • Boletos falsos
  • Perfis falsos pedindo dinheiro
  • Compras não entregues (OLX, cartão clonado, bilhete premiado, “nudes”)
  • Falsos leilões e sites fraudulentos
  • Uso indevido do CPF e fraudes ligadas ao auxílio emergencial e FGTS

O Delegado Regional da Polícia Civil, Sandro Meinerz, ressalta que o ambiente virtual se tornou campo fértil para golpistas, especialmente após a pandemia. A facilidade de acesso à tecnologia foi acompanhada por uma sofisticação dos criminosos, que usam redes sociais, aplicativos e até telefone para ludibriar vítimas.

Se a pessoa não participou de um sorteio, não vai ganhar prêmio algum. Bancos não ligam pedindo dados. Jamais se deve fornecer senhas ou informações pessoais por telefone ou aplicativo”, alertou Meinerz.

Ele destaca que registrar o boletim de ocorrência é indispensável. Santa Maria já foi palco de operações interestaduais contra quadrilhas de estelionatários, com atuação conjunta entre Draco, São Sepé e a Delegacia de Proteção ao Idoso.


Prevenção é responsabilidade coletiva

Embora o DERCC vá assumir os casos mais complexos, as delegacias locais continuarão recebendo as denúncias.

Continuaremos atendendo os casos possíveis. Mas os mais graves e com organizações criminosas irão ao DERCC”, explicou Meinerz.

Para Emerson Wendt, especialista em crimes digitais, o registro de ocorrência é crucial para dimensionar o problema e criar estratégias eficazes de combate.

Sem ações concretas de educação e prevenção, o ciclo do golpe continua.

Enquanto os crimes de rua diminuem, os crimes digitais crescem silenciosamente. A criação do DERCC é um passo importante, mas denunciar e se informar são atitudes individuais e essenciais para enfrentar essa nova criminalidade.

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