Quando comecei minha trajetória na Polícia Civil, os crimes tinham endereço fixo, cenário físico e vestígios palpáveis. Hoje, o cenário mudou radicalmente. Os crimes virtuais romperam fronteiras, deslocaram paradigmas e exigiram um novo olhar da segurança pública e do Direito. Com a experiência acumulada ao longo de 25 anos na investigação criminal e na docência, percebo claramente que não se combate o crime digital com métodos tradicionais.
Casos de invasão de sistemas, golpes financeiros sofisticados, chantagens virtuais e divulgação não autorizada de imagens íntimas tornaram-se rotineiros. Como operador do direito especializado em persecução penal, posso afirmar que o Direito precisa evoluir rapidamente para não ser ultrapassado por esses criminosos modernos. A complexidade técnica das provas digitais exige conhecimento profundo não apenas do Direito, mas também das ferramentas tecnológicas envolvidas.
Vejo com preocupação o fato de que governos frequentemente se vangloriam da redução dos índices de criminalidade com base em estatísticas que consideram exclusivamente os crimes tradicionais. Contudo, ignora-se um aspecto essencial: grande parte da criminalidade migrou do mundo analógico para o virtual, fenômeno subnotificado pelas autoridades. Estimo, a partir da minha experiência, que nove em cada dez vítimas sequer registram ocorrência policial na casa de estelionatos virtuais tentados, e até consumados. Isso significa que os números reais são dezenas de vezes superiores ao que é divulgado oficialmente, representando um risco silencioso e crescente à segurança de todos nós.
Minha experiência prática em investigações, associada à formação acadêmica, permite inferir que é indispensável agir com rapidez, precisão e responsabilidade ética nesses casos, protegendo direitos fundamentais e assegurando uma investigação justa e tecnicamente rigorosa.
Por isso, vai o alerta: em crimes virtuais, tempo é crucial. Orientação especializada e imediata pode significar a diferença entre justiça e impunidade. Afinal, enfrentar o crime digital requer preparação, domínio técnico e muita estratégia jurídica. E essa é precisamente a minha atuação, construída ao longo de uma carreira dedicada a garantir segurança, justiça e dignidade no ambiente digital.
Professor Doutor Marcelo Mendes Arigony, Diretor da ULBRA Santa Maria.