O Pronto-Socorro do Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM) registrava 215% de lotação na manhã desta quinta-feira (3), segundo o superintendente da instituição, Humberto Moreira Palma. O índice foi informado durante entrevista concedida ao Portal Rafael Menezes após a divulgação, na noite de quarta-feira (2), de um vídeo que mostrava a situação de superlotação na unidade. De acordo com Palma, o cenário havia sido ainda mais crítico no final do dia anterior, quando a ocupação do Pronto-Socorro ultrapassou 300%. O superintendente explicou que a situação é dinâmica e pode sofrer alterações em questão de minutos, devido à entrada constante de pacientes, altas e internações.
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O levantamento realizado por volta das 9h desta quinta-feira apontava mais de 50 pacientes nos pontos de cuidado e observação do Pronto-Socorro, que possui 26 pontos de atendimento. Segundo o superintendente, o número exato de pacientes varia constantemente porque, ao mesmo tempo em que novos usuários chegam à unidade, outros recebem alta ou são encaminhados para internação.
Palma também informou que, na quarta-feira, o hospital registrou 31 altas hospitalares, o equivalente a cerca de 10% da capacidade da instituição. Mesmo assim, a entrada de novos pacientes foi superior à capacidade de absorção da estrutura.
O cenário de superlotação, segundo o superintendente, não se restringe ao Pronto-Socorro. Ao final da quarta-feira, o HUSM como um todo estava com 107% de ocupação. Para Palma, um hospital operando acima da capacidade representa uma situação que ultrapassa os parâmetros de segurança de uma instituição hospitalar, seja pública ou privada.
Demanda espontânea aumentou
Um dos fatores apontados pela direção para o agravamento do problema é o crescimento da demanda espontânea. Conforme Palma, em abril do ano passado o hospital registrava aproximadamente 800 pacientes de demanda espontânea. Atualmente, esse número se aproxima de 1.400.
A avaliação da gestão é de que a rede de urgência e emergência da região Central do Rio Grande do Sul não está estruturada para absorver a atual procura.
O HUSM recebe pacientes encaminhados de diferentes municípios e também aqueles que chegam diretamente à unidade em busca de atendimento. Segundo o superintendente, o hospital possui um Pronto-Socorro classificado como tipo 2 e de porta aberta.
Os pacientes que chegam por demanda espontânea passam pela classificação de risco baseada no Protocolo de Manchester. A partir dessa avaliação, os casos são priorizados conforme a gravidade.
O problema, segundo Palma, é que a unidade precisa conciliar essa demanda com os casos graves que chegam pela chamada porta vermelha.
São pacientes com situações como Acidente Vascular Cerebral (AVC), politraumatismos e infarto do miocárdio, além de outros quadros considerados emergenciais. Esses atendimentos precisam ser priorizados e acabam disputando espaço dentro de uma estrutura que já se encontra sobrecarregada.
HUSM afirma cumprir contrato com o Estado
Palma afirmou que o HUSM possui contrato com o gestor responsável pela organização da saúde no Estado e que a instituição cumpre as obrigações estabelecidas.
Segundo ele, além dos pacientes que procuram espontaneamente o hospital, a instituição recebe encaminhamentos realizados pela regulação estadual.
Entre eles estão as chamadas "vagas zero", destinadas a pacientes que estão em situação grave ou apresentam risco de morte e precisam ser encaminhados para um hospital de referência.
O superintendente citou ainda outros tipos de encaminhamentos regulados pelo Estado e afirmou que, diante desse cenário, o HUSM acaba assumindo um papel que, na avaliação dele, extrapola a função específica de um hospital universitário.
Para Palma, o problema central está na organização da rede de urgência e emergência da região.
"A rede de urgência e emergência da região Central do Rio Grande do Sul está desestruturada, desorganizada", afirmou o superintendente.
Segundo ele, a responsabilidade pela organização dessa rede é da Secretaria Estadual de Saúde, enquanto os hospitais atuam como prestadores de serviços dentro dos contratos estabelecidos com o Estado.
"Joga tudo para o Hospital Universitário", afirma superintendente
Ao explicar o funcionamento da rede, Palma comparou a situação a uma grande estrada utilizada por milhões de pessoas, na qual existem diversos pontos de apoio, mas apenas um deles possui estrutura completa para atender determinadas necessidades.
Na avaliação do superintendente, o HUSM acaba funcionando como esse ponto de referência para uma grande parcela da população regional.
Ele afirmou que a área de abrangência e a complexidade dos serviços fazem com que pacientes de diferentes municípios sejam direcionados para Santa Maria.
Segundo Palma, o hospital atende uma população regional estimada em aproximadamente 1,8 milhão de habitantes, em uma área que inclui municípios da região Central e outras áreas do Estado.
Para o gestor, a falta de uma estrutura regional capaz de absorver adequadamente os atendimentos de menor complexidade contribui para que o HUSM receba pacientes que poderiam ser atendidos em outras unidades.
Orientação é procurar UBS e UPAs antes do HUSM em casos de menor gravidade
Diante do aumento da demanda, o superintendente orientou a população a procurar o HUSM principalmente quando houver necessidade de atendimento de maior complexidade ou situação de emergência.
Ele reconheceu, porém, que muitas vezes o cidadão não possui conhecimento técnico para avaliar a gravidade de um problema de saúde.
Por isso, a orientação é buscar inicialmente as Unidades Básicas de Saúde (UBSs) da região onde o paciente reside ou, nos casos indicados, as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs).
Palma também defendeu o fortalecimento da Estratégia de Saúde da Família e da medicina de família e comunidade.
Na avaliação dele, uma rede de atenção básica mais presente nos bairros poderia evitar que situações de menor complexidade acabassem chegando diretamente ao Pronto-Socorro do HUSM.
O superintendente afirmou ainda que os municípios precisam cobrar dos gestores a manutenção de equipes de saúde da família atuantes nos territórios.
Outros hospitais da cidade
Durante a entrevista, Palma também foi questionado sobre a existência de outras unidades hospitalares em Santa Maria, como a Casa de Saúde e o Hospital Regional, e sobre a possibilidade de redistribuição dos pacientes.
Segundo ele, a organização dessa distribuição não é atribuição exclusiva do HUSM.
Conforme explicou, cabe ao gestor responsável pela rede de saúde estabelecer, por meio dos contratos e instrumentos de regulação, quais serviços serão prestados por cada hospital e como os pacientes serão encaminhados.
Palma ressaltou que não conhece os contratos firmados individualmente com os demais hospitais da região e, por isso, não poderia afirmar quais são as responsabilidades contratualizadas de cada instituição.
Ele reforçou que cabe ao Estado organizar a rede de atenção à saúde e de urgência e emergência, enquanto os hospitais prestam os serviços previstos em seus respectivos contratos.
Gestão do HUSM
Questionado sobre a estrutura administrativa do hospital, Palma explicou que fala especificamente pela gestão do HUSM e não pelas demais instituições hospitalares da cidade.
Segundo ele, o Hospital Universitário de Santa Maria é administrado pela Rede HU Brasil, empresa responsável pela gestão dos hospitais universitários federais.
O superintendente destacou que a instituição possui contrato com o Estado e que esse instrumento pode passar por ajustes e aditivos conforme as necessidades do hospital, as solicitações do próprio Estado e a capacidade operacional da unidade.
Palma também informou que, nos últimos anos, aproximadamente 1.250 funcionários foram contratados por meio de concurso para atuar no HUSM, entre médicos, profissionais administrativos e equipes de saúde.
O gestor afirmou ainda que o hospital possui mecanismos de transparência e é submetido a auditorias internas e externas.
Medidas para tentar reduzir a superlotação
Apesar da pressão sobre o Pronto-Socorro, o superintendente afirmou que a instituição vem adotando medidas para melhorar o atendimento e reduzir os impactos da superlotação.
Entre as ações citadas estão linhas de emergência, farmácias-satélite, contratação de profissionais e iniciativas voltadas à melhoria do fluxo interno.
Palma também informou que uma profissional que virá de Brasília deverá atuar especificamente na análise dos processos relacionados às internações, ao fluxo do Pronto-Socorro e ao giro de leitos.
A intenção, segundo ele, é identificar gargalos e implementar mudanças capazes de melhorar o fluxo dos pacientes e diminuir o tempo de permanência na emergência.
Também estão sendo realizadas pequenas reformas e intervenções na estrutura física, dentro das possibilidades da instituição, com o objetivo de melhorar a ambiência e proporcionar maior conforto e segurança aos pacientes.
Situação é considerada crônica
Palma está há quatro anos e meio à frente da superintendência do HUSM e afirmou que a superlotação não começou na atual gestão.
Segundo ele, quando assumiu o cargo, o problema já fazia parte da realidade do hospital e era considerado uma situação crônica.
O superintendente também revelou que, em anos anteriores, existia um plano para que o HUSM assumisse a gestão de outro hospital da região. A proposta, entretanto, não avançou devido a mudanças ocorridas em nível estadual.
Na avaliação de Palma, se essa estrutura tivesse sido incorporada à gestão do HUSM, a realidade da saúde de Santa Maria poderia ser diferente atualmente.
Questionado sobre o motivo pelo qual a proposta não avançou, ele atribuiu a decisão a questões relacionadas à orientação de projetos políticos.
"O Hospital Universitário nunca vai deixar de atender"
Ao final da entrevista, Palma fez questão de afirmar que, apesar da superlotação e das limitações estruturais, nenhum paciente que chegar ao HUSM deixará de ser atendido.
"O Hospital Universitário de Santa Maria nunca vai deixar de atender um paciente. Nunca."
O superintendente reconheceu que a instituição não é perfeita, que existem falhas e que elas precisam ser corrigidas. Segundo ele, a superlotação não altera o compromisso de prestar atendimento aos pacientes.
"Entrou aqui, ele será atendido da melhor forma possível dentro das nossas condições, seja de superlotação ou não."
Palma afirmou que o objetivo é garantir que o atendimento seja realizado com atenção, acolhimento e humanização, mesmo quando a equipe precisa lidar com um número de pacientes muito superior à capacidade planejada.
Segundo ele, a sobrecarga pode limitar o tempo que cada profissional consegue permanecer com determinado paciente, mas não deve retirar o compromisso de oferecer o melhor atendimento possível.
"O paciente não é um número, é uma pessoa que está precisando ser cuidada", afirmou o superintendente.
Para Palma, o papel do HUSM é receber a comunidade, trabalhar pela vida e pelo Sistema Único de Saúde (SUS), buscando oferecer atendimento com atenção, acolhimento e humanização mesmo diante das dificuldades enfrentadas diariamente.
A entrevista foi concedida na manhã desta quinta-feira (3), após a repercussão de um vídeo encaminhado à reportagem e divulgado na noite de quarta-feira (2), que registrou a situação de superlotação no Pronto-Socorro do Hospital Universitário de Santa Maria.