Um homem que havia sido colocado em liberdade após a Justiça anular a ação penal da Operação Quarta Colônia Livre foi preso novamente na segunda-feira (10), 11 dias depois, por uma condenação relacionada à participação em um roubo a uma lotérica ocorrido em 2020, em Dona Francisca. A prisão ocorreu enquanto ele estava no Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM), onde acompanhava a companheira, uma mulher de 29 anos que foi baleada dentro de casa, em Faxinal do Soturno, na madrugada de domingo (9).
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A sequência dos fatos começou em 31 de julho, quando uma decisão do juiz André de Oliveira Pires, da 1ª Vara Estadual de Processo e Julgamento dos Crimes de Organização Criminosa e Lavagem de Dinheiro, determinou o trancamento da ação penal da Operação Quarta Colônia Livre e a revogação das prisões preventivas e dos monitoramentos eletrônicos impostos aos réus.
A decisão reconheceu a incompetência do Juízo da Comarca de Faxinal do Soturno para autorizar medidas relacionadas à investigação de crimes de organização criminosa e lavagem de dinheiro. O magistrado declarou nulas as provas produzidas durante a investigação e também aquelas delas derivadas.
Ao todo, a ação penal envolvia 62 réus. O juiz determinou a expedição imediata dos alvarás de soltura para os acusados que permaneciam presos exclusivamente por causa daquele processo.
Operação mobilizou centenas de policiais
A Operação Quarta Colônia Livre foi deflagrada pela Polícia Civil em 21 de agosto de 2025, após aproximadamente cinco meses de investigação conduzida pelo setor de inteligência da Delegacia de Polícia Regional de Santa Maria.
A ofensiva mobilizou 310 policiais civis, que cumpriram 74 mandados de busca e apreensão, 49 mandados de prisão preventiva e nove mandados de prisão temporária em municípios da região.
Segundo a investigação divulgada na época, o objetivo era combater um grupo suspeito de envolvimento com tráfico de drogas, organização criminosa e lavagem de dinheiro. Faxinal do Soturno era apontado como um dos pontos utilizados para a distribuição de drogas para municípios próximos.
A operação também atingiu o patrimônio dos investigados, com bloqueio judicial de valores e apreensão de documentos, celulares e outros materiais.
Com a decisão judicial de 31 de julho, as prisões preventivas e demais medidas cautelares impostas no processo foram revogadas. O homem preso nesta terça-feira (11) estava entre os beneficiados pela decisão.
Jovem morto a tiros
Bernardo Lucas Hollveg Kluge, 18 anos foi morto a tiros durante a madrugada de 3 agosto, na Rua Leonardo Brondani, no bairro Medianeira. Segundo a ocorrência, ele estava dentro de casa quando a porta da residência foi arrombada e um homem efetuou diversos disparos.
Familiares relataram que a ação foi rápida e a vítima morreu ainda no local. Uma testemunha afirmou ter reconhecido o atirador como um adolescente de 17 anos, que possui antecedentes relacionados ao tráfico de drogas. No local, foram encontrados preliminarmente 11 estojos de munição calibre 9 milímetros.
Mulher é baleada dentro de casa
Nove dias depois da decisão que determinou a soltura dos réus, na madrugada de domingo (9), a companheira do homem foi baleada dentro da residência onde o casal estava, na Rua Oreste Pacheco, na Vila Verde Teto, em Faxinal do Soturno.
Segundo a ocorrência, dois homens arrombaram a porta da casa, anunciaram que seriam policiais e efetuaram disparos contra o interior do imóvel.
Um dos tiros atingiu o abdômen da mulher e transfixou. Ela recebeu atendimento médico e foi encaminhada ao Hospital Universitário de Santa Maria, onde permanece em recuperação. O estado de saúde dela chegou a ser considerado grave.
O companheiro estava em outro cômodo no momento dos disparos e não foi atingido.
A principal suspeita registrada na ocorrência é de que o homem fosse o verdadeiro alvo da ação e que a mulher tenha sido atingida durante o ataque. Os dois criminosos teriam utilizado capuzes e fugido em um Fiat Palio Weekend prata, com películas escuras.
A Brigada Militar realizou buscas após o ataque, mas os suspeitos não haviam sido localizados até o fechamento da ocorrência. A Polícia Civil investiga o caso.
Casa do Turista é alvo de pichações
Em meio a esse cenário de preocupação com a segurança pública, a Casa do Turista de Faxinal do Soturno também foi alvo de vandalismo e pichações. O imóvel, que representa um dos espaços públicos ligados ao turismo e à identidade do município, acabou sendo utilizado para inscrições que chamaram a atenção de moradores.
O episódio ocorreu em um período de tensão provocado pela disputa de território entre grupos envolvidos na comercialização de drogas no município e em outras cidades da Quarta Colônia. As pichações podem representar uma forma de demarcação ou provocação entre grupos, mas a autoria e a motivação do vandalismo ainda não foram esclarecidas pelas autoridades. O caso passou a ser observado por moradores como mais um sinal da tensão que envolve a região, embora não exista confirmação oficial de ligação entre as pichações e os demais crimes recentes.
Nova prisão ocorreu no hospital
Enquanto a mulher se recuperava dos ferimentos no HUSM, o companheiro permaneceu no hospital como acompanhante. Foi no local que ele acabou preso novamente, 11 dias depois de ter deixado a prisão em razão da decisão judicial que anulou a ação penal da Operação Quarta Colônia Livre.
A nova prisão, porém, não está relacionada à investigação da operação anulada. O homem foi detido em razão de uma condenação pela participação em um roubo a uma loteria ocorrido em 2020, em Dona Francisca.
Dessa forma, a prisão ocorre por um fato diferente daquele que havia motivado sua prisão preventiva na Operação Quarta Colônia Livre.
A situação também ocorre em meio à investigação sobre o ataque à residência do casal. A informação de que o homem poderia ser o alvo dos criminosos deverá ser considerada nas apurações sobre a tentativa de homicídio contra a mulher.
Justiça anulou processo por questão de competência
Na decisão que colocou os réus em liberdade, o juiz André de Oliveira Pires afirmou que o Juízo de Faxinal do Soturno não tinha competência para conduzir medidas relacionadas aos crimes de organização criminosa e lavagem de dinheiro que eram apurados.
O magistrado declarou a nulidade, desde o início, da ação penal e determinou seu trancamento. Também afastou a validade das provas produzidas a partir das medidas autorizadas pelo juízo considerado incompetente.
A decisão determinou ainda que a revogação das prisões e dos monitoramentos tivesse efeito para todos os denunciados vinculados ao processo, ressalvadas situações em que algum réu permanecesse preso por outro motivo.
O advogado criminalista Wedner Lima, que representa alguns dos réus, afirmou que a decisão reforça a necessidade de observância das garantias constitucionais e do princípio do juiz natural.
A decisão foi comunicada ao Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, ao Superior Tribunal de Justiça e à Corregedoria-Geral da Justiça.