Toda profissão atravessa momentos de transformação. Algumas mudanças acontecem lentamente, quase sem serem percebidas. Outras alteram completamente a forma como as pessoas trabalham, se relacionam e constroem suas carreiras. A advocacia vive um desses momentos.
Os últimos anos deixaram evidente que a forma de atender, de comunicar, de fazer a gestão de um escritório e de construir confiança passou a influenciar diretamente a trajetória profissional.
Muitos enxergam esse cenário com preocupação, como se a modernização exigisse abrir mão da essência da advocacia. Talvez o equívoco esteja justamente nessa interpretação. Existe uma diferença profunda entre adaptar-se e descaracterizar-se.
A natureza oferece um bom exemplo. O camaleão tornou-se conhecido pela capacidade de modificar sua aparência conforme o ambiente. Durante muito tempo acreditou-se que essa mudança servia apenas para camuflagem, mas hoje se sabe que ela também está relacionada à comunicação, à temperatura, ao comportamento e à própria sobrevivência.
Em nenhum desses momentos o camaleão deixa de ser um camaleão. Sua essência permanece intacta. O que muda é sua capacidade de compreender o ambiente em que vive. Talvez essa seja uma das maiores lições para o advogado contemporâneo.
Evoluir e se adaptar não é apenas necessário: é urgente. Há um grande novo contexto em que a advocacia está inserida e mudando a forma como tudo acontece. Seja através da urgente necessidade de inserção na internet, seja na busca por clientes, seja na gestão cada vez mais humana e profissional do escritório de advocacia.
É justamente nesse ponto que alguns profissionais experimentam uma sensação de conflito. Acreditam que aprender marketing significa transformar a profissão em espetáculo. Que estudar vendas compromete a ética. Que investir em gestão afasta o advogado da técnica.
Na prática, trata-se de competências diferentes, que convivem e se complementam. A técnica continua sendo aquilo que sustenta o exercício da advocacia; as demais habilidades permitem que ela alcance as pessoas certas, seja percebida e produza os resultados que dela se esperam.
A adaptação sempre fez parte da história da humanidade. Mudaram as ferramentas, mudaram os meios de comunicação, mudaram as formas de trabalho e mudaram as relações sociais. Permanecer fiel aos próprios valores nunca significou permanecer preso aos mesmos métodos.
Talvez o advogado da próxima década precise desenvolver exatamente essa capacidade. Manter princípios sólidos, cultivar reputação, preservar a ética e aprofundar continuamente seu conhecimento jurídico, enquanto aprende novas formas de administrar seu escritório, comunicar suas ideias e construir relacionamentos de confiança.
O efeito camaleão não representa uma mudança de identidade. Representa a maturidade profissional e a compreensão de que a sociedade continuará se transformando, sendo necessário ao profissional do direito acompanhar essas transformações como demonstração de inteligência e adequação.
No fim, os profissionais que permanecerão relevantes provavelmente não serão aqueles que resistirem a toda mudança, nem aqueles que seguirem qualquer tendência. Serão aqueles capazes de reconhecer o que merece ser preservado e o que precisa evoluir.
Porque adaptar-se nunca foi deixar de ser quem se é. Sempre foi a maneira mais inteligente de continuar existindo.
Advogado Ailson Gamarra
Sócio escritório Paim, Gamarra & Perasoni Advogados