Durante muito tempo, falar sobre marketing dentro da advocacia causava certo desconforto. A própria palavra parecia incompatível com a sobriedade esperada da profissão e, para muitos, remetia imediatamente à publicidade ostensiva, à captação indevida de clientes ou à transformação do serviço jurídico em uma atividade puramente comercial.
Essa percepção ajudou a criar uma distância entre o advogado e uma área que sempre esteve presente em sua vida profissional, ainda que raramente recebesse esse nome. Porém, o advogado que construiu uma boa reputação na cidade fez marketing. Aquele que cultivou relações profissionais, participou de entidades, escreveu artigos, ministrou palestras ou se tornou conhecido por determinada área também fez.
Até a antiga placa colocada diante do escritório cumpria essa função: comunicar às pessoas quem estava ali e qual serviço poderia prestar. Durante décadas, a advocacia desenvolveu suas próprias formas de se apresentar à sociedade, quase sempre sustentadas pela reputação e pelo relacionamento.
A transformação digital ampliou esse espaço de comunicação. As relações que antes aconteciam predominantemente no ambiente físico passaram a ocupar também o ambiente virtual, acompanhando uma sociedade que trabalha, conversa, pesquisa e toma decisões diante de uma tela.
Para o advogado, essa mudança trouxe novas possibilidades de presença e também a necessidade de compreender melhor os limites, a linguagem e a responsabilidade envolvidos nessa exposição.
Marketing, em sua essência, começa muito antes de uma publicação nas redes sociais. Ele está na forma como um escritório é percebido, na clareza de seu posicionamento, na experiência proporcionada ao cliente e na reputação construída ao longo do tempo.
Talvez a resistência de alguns advogados esteja relacionada à maneira como o marketing passou a ser praticado em determinados ambientes. A internet também produziu excessos: promessas fáceis, fórmulas milagrosas, ostentação, dancinhas, personagens construídos e uma disputa permanente por atenção.
Compreender marketing profissionalmente permite fazer escolhas melhores. Um escritório que conhece seu público consegue comunicar-se com mais clareza, escolher os canais adequados e construir uma identidade coerente com aquilo que entrega.
Todo escritório precisa contar com novos clientes para continuar existindo, pagar sua estrutura, remunerar pessoas, investir em tecnologia e aprimorar seus serviços. E um profissional competente que aprende a comunicar seu trabalho aumenta as possibilidades de ser encontrado pelas pessoas que precisam dele.
A advocacia dos próximos anos provavelmente será cada vez mais disputada pela atenção. Novas tecnologias reduzirão distâncias, facilitarão o acesso à informação e permitirão que profissionais de diferentes lugares ocupem os mesmos espaços. Nesse ambiente, reputação, posicionamento e comunicação terão um valor crescente, especialmente quando sustentados por um trabalho consistente.
O Marketing não precisa transformar o advogado em influenciador e dançarino, mas ajuda-o a compreender como o mercado funciona, onde estão as pessoas que precisam do seu trabalho e de que maneira sua presença pode ser construída com inteligência e coerência.
Talvez seja hora de a advocacia amadurecer essa relação. Técnica, ética, gestão, comunicação e capacidade de gerar negócios pertencem à mesma carreira profissional. Quando cada uma dessas dimensões encontra seu lugar, o crescimento deixa de parecer incompatível com os valores da profissão.
Marketing nunca foi o pecado. A maneira como escolhemos fazê-lo é que revela o advogado que decidimos ser.
Ailson Gamarra - Advogado Especialista em Direito Previdenciário.