Os advogados de defesa dos policiais militares acusados pela morte de Gabriel Marques Cavalheiro afirmaram que o terceiro dia do júri popular fortaleceu a tese de inocência dos réus e evidenciou falhas na investigação conduzida durante a apuração do caso. As declarações foram dadas à imprensa após o encerramento da sessão desta quarta-feira (1º), no Fórum de São Gabriel.
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Advogado dos ex-soldados Cléber Renato Ramos de Lima e Raul Veras Pedroso, Jean Severo afirmou que os depoimentos prestados ao longo do dia demonstraram que a investigação se concentrou em apenas uma linha de apuração, deixando de analisar outras possibilidades.
Segundo ele, os depoimentos da proprietária da área onde o corpo foi encontrado, Carmen Fontana Funganti, e de seu esposo, Telvi Luiz Funganti, apresentaram contradições quanto à permanência do casal em São Gabriel no período do desaparecimento de Gabriel.
— A gente acaba revelando que o inquérito foi muito mal conduzido. Foi uma investigação túnel, que não procurou outras vertentes. O que nós percebemos é que Telvi e Carmen estavam em São Gabriel nos dias 13 e 14 de agosto de 2022, quando o menino desapareceu. Eles dizem que não, só que a prova técnica os pegou. Agora eu pergunto: por que eles mentiram? Se o corpo foi encontrado na propriedade deles, eles eram os primeiros que deveriam ser investigados, mas não foram.
O advogado também afirmou que uma das testemunhas ouvidas durante o julgamento confirmou a existência de um caseiro conhecido como "Moreno", que trabalharia na propriedade e seria sobrinho de Carmen Fontana Funganti.
— Hoje uma testemunha confirmou que existia, sim, um capataz, um caseiro, chamado Moreno, que era funcionário da propriedade e sobrinho da Carmen. Isso reforça que havia outras pessoas que deveriam ter sido investigadas.
Jean Severo também destacou a inspeção realizada pelos jurados na localidade de Lava-Pé após o encerramento da sessão. Na avaliação dele, a diligência reforçou a tese da defesa sobre a inviabilidade do deslocamento descrito pela acusação.
— Depois da inspeção que fizemos hoje no local, ficou demonstrado que é impossível, pelo tempo apontado no processo, que os policiais tenham levado o corpo até o açude. Para mim, esse processo acabou. Se o Ministério Público entender que a justiça deve prevalecer, deveria pedir a absolvição dos acusados.
Representando o ex-sargento Arleu Jacobsen, o advogado Maurício Custódio afirmou que a estratégia da defesa é demonstrar que os policiais não tiveram qualquer participação na morte de Gabriel nem na ocultação do cadáver.
Segundo ele, todas as medidas adotadas pela defesa buscaram ampliar a análise das provas pelo Conselho de Sentença.
— O objetivo é provar que eles não praticaram o crime e que não tiveram nenhuma participação na morte ou na ocultação do corpo do Gabriel. Quem é inocente quer todas as provas. Nós só temos o Poder Judiciário para recorrer. Em todas as oportunidades, a defesa trouxe elementos para que os jurados pudessem examinar as provas. Pedimos a inspeção no local, trouxemos testemunhas e mostramos as divergências existentes nos depoimentos.
Para o advogado, a credibilidade das testemunhas também deve ser analisada pelos jurados.
— A testemunha não é a prova. Ela pode mentir, distorcer, divergir, inventar, criar ou aumentar fatos. Por isso é importante que o Conselho de Sentença avalie cuidadosamente tudo o que foi produzido durante o julgamento.
Maurício Custódio voltou a criticar a condução da investigação e afirmou que outras hipóteses deixaram de ser aprofundadas desde o início do caso.
— A pergunta é por que o Ministério Público, diante de tudo o que foi demonstrado até agora, não tem a cautela e a grandeza de reconhecer que esses policiais são inocentes. Houve uma investigação apressada, que nunca trabalhou com uma segunda hipótese. Ninguém gostaria de ser investigado em dez dias e carregar uma acusação por mais de 30 anos sabendo que outras possibilidades apontavam para o verdadeiro assassino do Gabriel, que continua solto. A defesa acredita que essa injustiça será corrigida pelo Conselho de Sentença.
Relembre o júri
O julgamento começou na segunda-feira (29), com a formação do Conselho de Sentença e os depoimentos da mãe e do pai de Gabriel Marques Cavalheiro, do delegado responsável pelas investigações e de um morador da região de Lava-Pé.
No segundo dia, os jurados ouviram peritos que afirmaram que Gabriel não apresentava sinais típicos de afogamento e que as lesões identificadas indicavam que ele teria sido colocado na água já sem vida. Também prestaram depoimento a oficial responsável pelo Inquérito Policial Militar, uma vizinha que registrou imagens da abordagem policial, outras testemunhas e o policial militar que coordenou as buscas pelo jovem.
Já no terceiro dia, foram ouvidos a proprietária da área onde o corpo foi encontrado, seu esposo, um policial da reserva, um oficial que atuou na investigação administrativa e o major que localizou o corpo durante as buscas. A sessão também foi marcada por uma discussão entre acusação e defesa, pelo pedido de prisão de uma testemunha — negado pela juíza — e pela inspeção realizada pelos jurados na localidade de Lava-Pé, a pedido da defesa.
O caso
Gabriel Marques Cavalheiro desapareceu na noite de 12 de agosto de 2022, após ser abordado por policiais militares em São Gabriel. Dias depois, seu corpo foi localizado em uma barragem na localidade de Lava-Pé.
Três policiais militares respondem ao processo pelos crimes de homicídio qualificado e ocultação de cadáver. O Ministério Público sustenta que Gabriel foi abandonado na região após a abordagem e posteriormente morreu no local. A defesa nega a participação dos réus na morte do jovem, afirma que a investigação desconsiderou outras linhas de apuração e busca convencer o Conselho de Sentença de que os acusados devem ser absolvidos.
O julgamento prossegue nesta quinta-feira (2), com os debates entre acusação e defesa, etapa que antecede a votação dos jurados e a sentença.