O terceiro dia do júri popular que apura a morte de Gabriel Marques Cavalheiro ocorrida em agosto de 2022, foi marcado por discussões em plenário, contradições entre testemunhas, depoimentos sobre a investigação administrativa conduzida pela Brigada Militar e uma inspeção realizada pelos jurados na localidade de Lava-Pé, onde o corpo do jovem foi encontrado em uma barragem. A sessão ocorreu nesta quarta-feira (1º), no Fórum de São Gabriel.
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Os trabalhos começaram por volta das 9h com o depoimento de Carmen Fontana Funganti, de 75 anos, proprietária da área onde está localizada a barragem em que Gabriel foi encontrado.
Durante a oitiva, Carmen afirmou que não estava em São Gabriel no período dos fatos. A versão foi contestada pela acusação, que apresentou registros de sinal de telefonia indicando que o aparelho da testemunha teria permanecido ativo no município na época do desaparecimento.
A divergência provocou um bate-boca entre integrantes da promotoria e da defesa, levando a juíza Liz Grätsch a interromper temporariamente a sessão para restabelecer a ordem no plenário.
Durante a discussão, o advogado Jean Severo solicitou a prisão em flagrante da testemunha, alegando que ela teria faltado com a verdade em seu depoimento. O pedido não foi acolhido pela magistrada, e os trabalhos tiveram sequência.
Ainda pela manhã, por volta das 11h30min, foi ouvido Telvi Luiz Funganti, de 82 anos, esposo de Carmen. Ele também declarou que não estava em São Gabriel durante o período do desaparecimento de Gabriel, afirmando que residia em Santa Maria e realizava tratamento contra um câncer. Segundo o depoente, retornou ao município apenas no dia em que o corpo foi localizado.
As oitivas foram retomadas às 14h20min com o depoimento do 2º sargento da reserva da Brigada Militar Argileu de Carvalho. Ele relatou que conheceu Gabriel quando lhe ofereceu uma carona após um encontro relacionado a um cavalo domado pelo cunhado do jovem. Conforme seu relato, antes de chegar ao perímetro urbano, Gabriel pediu para desembarcar na localidade de Lava-Pé, demonstrando conhecer a região. O ex-policial também afirmou que, após o desaparecimento, recebeu uma ligação do cunhado de Gabriel pedindo que avisasse caso voltasse a encontrá-lo.
Na sequência, prestou depoimento o tenente Alexandre Rodrigues Pereira, que atuou como encarregado do Conselho de Disciplina instaurado pela Brigada Militar para apurar administrativamente o caso. Segundo o oficial, mais de 100 pessoas foram ouvidas durante a investigação interna. Em seu relato, também foi mencionada a atuação do então comandante do 4º Esquadrão da Brigada Militar, major Magno Almeida de Siqueira.
O último depoimento do dia foi prestado pelo major Magno Almeida de Siqueira. Questionado pela defesa, o oficial afirmou que, diante das características do terreno composto por solo arenoso, vegetação densa e acesso extremamente difícil, seria "humanamente impossível" percorrer o trajeto entre o ponto onde a viatura teria permanecido e a barragem, realizando ida e volta, dentro do tempo apontado pela acusação.
Magno também declarou que foi ele quem localizou o corpo de Gabriel durante as buscas. Segundo o depoimento, o jovem foi encontrado em uma área profunda da barragem, em posição vertical, cerca de 20 a 30 metros para dentro da vegetação, em um ponto de difícil acesso. O oficial ressaltou que as condições do terreno dificultaram significativamente os trabalhos das equipes que participaram das buscas.
O terceiro dia de julgamento foi encerrado por volta das 19h. Em seguida, os jurados, acompanhados da juíza Liz Grätsch, representantes do Ministério Público, advogados de defesa e demais participantes do processo, seguiram até a localidade de Lava-Pé para uma inspeção no ponto onde o corpo de Gabriel Marques Cavalheiro foi encontrado. A diligência foi realizada a pedido da defesa dos réus, permitindo que o Conselho de Sentença observasse as características da área mencionadas durante os depoimentos prestados ao longo do júri.
Relembre o primeiro dia
O júri popular teve início na segunda-feira (29), com a formação do Conselho de Sentença. Antes da abertura da fase de depoimentos, foi realizado o sorteio dos jurados, resultando em um colegiado composto por seis mulheres e um homem.
As oitivas começaram por volta das 12h, com o depoimento da mãe de Gabriel, Rosane Machado Marques. Ela falou sobre o desaparecimento do filho, as buscas realizadas pela família e os desdobramentos do caso.
Após um intervalo entre 13h30min e 16h30min, foi ouvido Anderson da Silva Cavalheiro, pai de Gabriel, que também prestou esclarecimentos sobre os acontecimentos e o impacto da perda do filho.
Por volta das 18h, começou o depoimento do delegado José Soares Bastos, responsável pelas investigações do caso. A oitiva se estendeu até aproximadamente 19h50min, tornando-se a mais longa do primeiro dia.
Encerrando a sessão, por volta das 20h, foi ouvido Luiz Carlos de Almeida, policial militar da reserva e proprietário de uma chácara localizada nas proximidades da região de Lava-Pé. Em razão de residir próximo ao local onde o corpo foi encontrado, ele prestou esclarecimentos sobre a área. Seu depoimento terminou por volta das 21h30min.
Relembre o segundo dia
O segundo dia de julgamento, realizado na terça-feira (30), foi dedicado principalmente à produção de provas técnicas e aos depoimentos de testemunhas consideradas fundamentais para a reconstrução dos fatos.
A manhã começou com a oitiva do perito Áureo Felipe Norberto Duarte, responsável pelo exame no corpo de Gabriel. O especialista afirmou que a vítima não apresentava sinais típicos de afogamento e que foram constatadas lesões na região do pescoço e da nuca. Segundo ele, impactos nessa área podem provocar perda rápida da consciência ou até morte imediata. Questionado pela promotoria sobre a possibilidade de Gabriel ter caminhado após sofrer essas lesões, respondeu que os elementos periciais indicam que o jovem foi colocado na água já sem vida.
Na sequência, a tenente-coronel Karla de Moura, responsável pelo Inquérito Policial Militar, afirmou que a investigação concluiu que os policiais assumiram o risco da morte de Gabriel ao deixá-lo na localidade de Lava-Pé. Ela também apontou divergências entre as versões apresentadas pelos acusados sobre o momento em que o jovem teria sido liberado da viatura e declarou que os elementos reunidos pelo IPM indicam que Gabriel foi abandonado na região.
À tarde, prestou depoimento o perito criminal Railander Alves Barcellos, responsável pela 5ª Coordenadoria Regional de Perícias.
Na sequência, foi ouvida uma vizinha de Gabriel, que teve sua identidade preservada por questões de segurança. Considerada uma das principais testemunhas do processo, ela presenciou a abordagem policial na noite do desaparecimento e registrou imagens da ação.
Outra testemunha afirmou que havia combinado de ir a um baile com a mulher que acionou a Brigada Militar naquela noite. Segundo seu relato, viu Gabriel com vida ao chegar à residência. Após deixar as jovens em outro local e retornar, encontrou apenas a viatura deixando a casa. Também declarou que, durante o trajeto até o baile, a amiga não comentou sobre a ocorrência.
Encerrando o segundo dia, o policial militar Gerson Vieira de Moura, responsável por coordenar as equipes de busca por Gabriel, prestou depoimento até aproximadamente 21h30min.
Após o encerramento da sessão, o advogado Jean Severo, defensor dos réus Raul Veras Pedroso e Cléber Renato Ramos de Lima, afirmou que pretende sustentar, durante os debates, a tese de que um caseiro que estaria a cavalo na região onde o corpo foi encontrado seria o autor da morte de Gabriel e que essa hipótese não teria sido investigada. O promotor de Justiça Eugênio Paes Amorim rebateu a versão apresentada pela defesa e ironizou a hipótese, comparando-a à lenda gaúcha do Negrinho do Pastoreio.
O julgamento prossegue nesta quinta-feira (2), quando deverão ocorrer os debates entre acusação e defesa antes da votação do Conselho de Sentença.