Os advogados Jean Severo e Maurício Custódio contestaram as declarações do Ministério Público sobre o fato de os três policiais militares acusados pela morte de Gabriel Cavalheiro não terem respondido às perguntas da acusação. Em entrevista concedida após o encerramento do quarto dia do júri, os defensores afirmaram que a decisão faz parte de uma estratégia legítima de defesa e destacaram que os réus responderam aos questionamentos formulados pelos jurados.
>>Clique aqui, siga nossa página no Instagram, e fique por dentro das atualizações em tempo real.
Jean Severo afirmou que a opção de permanecer em silêncio diante das perguntas do Ministério Público é um direito constitucional e minimizou as críticas feitas pelos promotores.
— Estranheza eles podem comentar, mas isso é um direito constitucional do acusado. Ele responde a quem quiser. Os réus responderam aos jurados, e os jurados fizeram várias perguntas, o que é o mais importante. Afinal de contas, o jurado é o destinatário da prova.
O advogado também criticou a atuação do Ministério Público durante o julgamento.
— Isso é normal. Em 20 anos de advocacia, eu nunca vi uma pergunta que preste de um promotor de Justiça para o réu. Eles só querem prejudicar o acusado. Ficaram o tempo inteiro dando risada, em um total desrespeito dentro do plenário.
Já o advogado Maurício Custódio afirmou que os interrogatórios reforçaram a versão apresentada pelos policiais desde o início das investigações e sustentou que ela é compatível com as provas técnicas produzidas no processo.
— Os interrogatórios traduzem o que há quatro anos os policiais falam e o que a prova técnica comprova. Não responder ao Ministério Público decorre exatamente da tentativa da acusação de fazer uma confrontação com as testemunhas durante o plenário.
Custódio também saiu em defesa das testemunhas ligadas à Brigada Militar, citando o depoimento do major responsável por localizar o corpo de Gabriel.
— O major Siqueira encontrou o cadáver do Gabriel em cima de um barco. Ele não estava escondido em um gabinete, atrás de pilhas de papel. Estava no barro, participando das buscas. Esse homem passou por este tribunal e foi tratado de forma extremamente deselegante pelo Ministério Público, que expôs conversas de um grupo de WhatsApp que não representam qualquer descrédito às instituições.
Segundo o defensor, os policiais vêm respondendo às mesmas indagações desde 2022 e já foram absolvidos em outras instâncias da Justiça Militar.
— Há uma indignação porque, além de serem injustiçados, esses policiais precisam de uma voz institucional. Não responder ao Ministério Público evita que a sociedade pense que repetir uma pergunta cem vezes, tentando colocar o acusado contra a parede, possa gerar uma contradição. Esses policiais respondem às mesmas perguntas há quatro anos.
O advogado lembrou ainda que os réus já foram julgados na esfera militar.
— Foram dois julgamentos na Justiça Militar, com cinco juízes em primeiro grau, sete desembargadores e três oficiais, e eles foram absolvidos.
Ao comentar a expectativa para a fase final do julgamento, Maurício Custódio afirmou que a defesa pretende concentrar seus argumentos na autoria do crime.
— Agora precisamos focar no debate. A pergunta que vamos responder é: quem matou Gabriel? Está solto ou está em São Gabriel? O Ministério Público quer convencer que um vídeo da testemunha Paula alterando seu depoimento não pode ser utilizado como prova. Amanhã, acreditamos que o debate vai esclarecer essas questões.
Relembre o caso
Gabriel Cavalheiro havia se mudado de Guaíba, na Região Metropolitana de Porto Alegre, para São Gabriel com o objetivo de cumprir o serviço militar obrigatório no Exército.
Na noite de 12 de agosto de 2022, enquanto estava hospedado na casa de um tio, no Bairro Divina Providência, saiu para tomar uma cerveja. Pouco depois, uma moradora acionou a Brigada Militar informando que um homem desconhecido tentava abrir o portão de sua residência.
Os três policiais militares denunciados atenderam a ocorrência, imobilizaram Gabriel e o colocaram no compartimento de transporte da viatura. Imagens gravadas por testemunhas e elementos reunidos na investigação indicam que ele também sofreu golpes de cassetete durante a abordagem. Aquela foi a última vez em que o jovem foi visto com vida.
O corpo de Gabriel foi encontrado no dia 19 de agosto de 2022, submerso em um açude na região conhecida como Lava Pé, na zona rural de São Gabriel. O Ministério Público acusa os três policiais militares de homicídio qualificado, ocultação de cadáver e fraude processual.