A promotora de Justiça Karine Teixeira afirmou, ao final do quarto dia do júri do Caso Gabriel Cavalheiro, que a decisão dos três policiais militares acusados de não responderem às perguntas formuladas pelo Ministério Público causou estranheza, embora seja um direito assegurado pela legislação. A manifestação ocorreu após o encerramento da fase de instrução em plenário, marcada pelos interrogatórios dos réus.
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Segundo a promotora, o silêncio é uma garantia constitucional, mas acaba sendo observado de forma diferente pela sociedade e pela acusação.
— Boa noite a todos. Encerramos o quarto dia de instrução em plenário de um processo de grande repercussão, muito aguardado na comarca de São Gabriel e em todo o Brasil, diante da gravidade dos fatos. O direito dos réus de permanecer em silêncio é assegurado, mas é evidente que esse direito causa estranheza à sociedade e ao Ministério Público, porque o inocente sempre quer falar e apresentar a sua versão.
Karine Teixeira também afirmou que o encerramento da instrução deixou um sentimento de tristeza ao Ministério Público, principalmente por envolver integrantes da Brigada Militar no banco dos réus.
— O que mais traz tristeza ao Ministério Público ao final dessa instrução é ver a Brigada Militar na posição de ré. A valorosa Brigada Militar do Estado do Rio Grande do Sul, parceira do Ministério Público em grandes lutas na defesa de direitos, hoje está sentada aqui na posição de acusados.
A promotora ressaltou que sua manifestação não representa uma crítica à instituição, mas aos fatos apurados no processo, lembrando sua trajetória de atuação ao lado das forças de segurança.
— Isso traz tristeza, especialmente para mim, que sou uma defensora da Brigada Militar. Também me entristece ouvir os depoimentos das testemunhas prestados neste plenário. Estou no Ministério Público há mais de 20 anos e, graças a Deus, nunca tive a oportunidade de acompanhar policiais acobertando crimes, ilegalidades ou violando direitos.
Ao concluir a entrevista, Karine Teixeira afirmou que o caso provoca indignação em diferentes aspectos de sua vida pessoal e profissional e disse esperar que a Justiça seja feita.
— Isso me entristece enquanto gaúcha, enquanto promotora de Justiça, enquanto mãe de família e enquanto defensora dos direitos e garantias. Amanhã será um grande julgamento e, se Deus quiser, a Justiça será feita nesta comarca de São Gabriel.
Relembre o caso
Gabriel Cavalheiro havia se mudado de Guaíba, na Região Metropolitana de Porto Alegre, para São Gabriel com o objetivo de cumprir o serviço militar obrigatório no Exército.
Na noite de 12 de agosto de 2022, enquanto estava hospedado na casa de um tio, no Bairro Divina Providência, saiu para tomar uma cerveja. Pouco depois, uma moradora acionou a Brigada Militar informando que um homem desconhecido tentava abrir o portão de sua residência.
Os três policiais militares denunciados atenderam a ocorrência, imobilizaram Gabriel e o colocaram no compartimento de transporte da viatura. Imagens gravadas por testemunhas e elementos reunidos na investigação indicam que ele também sofreu golpes de cassetete durante a abordagem. Aquela foi a última vez em que o jovem foi visto com vida.
O corpo de Gabriel foi encontrado no dia 19 de agosto de 2022, submerso em um açude na região conhecida como Lava Pé, na zona rural de São Gabriel. O Ministério Público acusa os três policiais militares de homicídio qualificado, ocultação de cadáver e fraude processual.