O mundo mudou. As mudanças ocorreram de forma gradual. Os avanços tecnológicos alteraram hábitos, encurtaram distâncias e aceleraram a circulação de informações. O celular passou a ocupar um espaço central na vida cotidiana e, pouco a pouco, transformou a forma como as pessoas trabalham, se relacionam, aprendem e tomam decisões.
Naturalmente, essa nova dinâmica também modificou a maneira o cliente contemporâneo convive diariamente com um volume de informações que seria impensável há poucas décadas. Logo, as opções se multiplicaram e as decisões passaram a ser tomadas com muito mais frequência e velocidade.
Essa transformação produziu efeitos importantes para a advocacia. A maioria das pessoas não possui conhecimento técnico para avaliar uma tese jurídica, interpretar uma estratégia processual ou distinguir diferentes correntes doutrinárias. Porém, basta “dar um google”, ou até usar um “GPT” para as mais mirabolantes estratégias jurídicas aparecerem, embaralhadas, distorcidas, dissociadas da realidade e do que realmente é juridicamente aplicável.
Na Medicina isso também acontece: é fácil achar um diagnóstico de câncer – ou doença rara – para qualquer dor, que, muitas vezes, não passa de um simples resfriado. As pessoas são bombardeadas por uma quantidade massiva de informações (muitas vezes errôneas, ou até clickbaits) que passam a falsa sensação de que tudo é fácil, e, no Direito, de que tudo é causa “é ganha”.
Vivemos em uma sociedade acostumada à velocidade. Mensagens são respondidas instantaneamente, compras são concluídas em segundos e conteúdos são consumidos rapidamente, no rolar da tela. Aos poucos, o cérebro passa a esperar respostas rápidas para praticamente tudo.
Naturalmente, essa expectativa acompanha o cliente quando ele entra em um escritório de advocacia. Muitas vezes ele chega carregando ansiedade, urgência e uma série de certezas construídas a partir de informações fragmentadas. Não raro, acredita já conhecer o caminho da solução antes mesmo de compreender a complexidade do problema.
Talvez uma das habilidades mais importantes do advogado contemporâneo seja justamente conduzir essa transição entre a expectativa e a realidade. O cliente não precisa apenas de orientação jurídica. Ele precisa de alguém capaz de organizar o cenário, separar fatos de opiniões, reduzir ruídos e devolver racionalidade a uma situação que frequentemente já está emocionalmente carregada.
Parte do profissional que atende estas pessoas demonstrar experiência, organização, postura, atenção e conhecimento. A demonstração de segurança passou a exercer papel decisivo na construção da confiança.
Talvez por isso alguns advogados encontrem dificuldades para compreender determinadas dinâmicas do mercado atual. A advocacia sempre foi uma profissão voltada à solução de conflitos, mas passou a exigir também a capacidade de lidar com um ambiente marcado pela aceleração constante da atenção humana.
Em certa medida, o advogado moderno tornou-se também um tradutor da realidade. Alguém capaz de transformar excesso de informação em clareza, ansiedade em confiança e expectativa em compreensão.
O cliente continua procurando alguém que resolva seu problema. A diferença é que, antes de iniciar qualquer solução, muitas vezes é preciso ajudá-lo a reencontrar a calma necessária para compreender o próprio problema.
Advogado